E eis que eu estava saindo da feirinha de artesanato da Av. Beira Mar, em Fortaleza, e meu telefone toca.
Era o celular da minha mãe.
Ao atender, minha mãe, com voz embargada, pediu que esperasse e quem pegou o telefone foi meu pai.
Ele estava chorando muito e disse que me amava.
E que me amava.
Me amava.
E eu só respondi: também, pai.
Quando desliguei o telefone, chorei, no meio da Beira Mar, na frente do taxista que me levaria de volta ao hotel.
Tuane Vieira
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
quarta-feira, 27 de julho de 2011
O Casamento
Eu e a Cibele nos casamos na sexta-feira, dia 15.
Apesar do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo não ser aceito AINDA no Brasil, fazer a escritura de União Estável foi um passo muito grande nas nossas vidas. Me senti realmente casando, somos responsáveis uma pela outra, mediante o querer das duas.
O tratamento no cartório foi o melhor de todos. Optamos por não faze-lo em Suzano e imediações por conta do medo de tornar esse momento um trauma; não queríamos, de forma alguma, sofrer nenhum tipo de preconceito ao chegar no cartório. Optamos pelo 26o. Tabelião de Notas, na Praça João Mendes, em SP. Lá, o tabelião já realiza esse tipo de contrato há 7 anos, por entender a necessidade de duas pessoas que se amam garantir seus direitos e deveres, já que elas já estão juntas há tempos.
Ganhamos até bem-casados e champangne. Chiquérrimo.
Hoje, eu e a Cibele somos casadas e responsáveis uma pela outra, como se fosse no civil mesmo. E aguardamos apenas as coisas ficarem mais claras para pedirmos a conversão em casamento civil e adotar o nome uma da outra.
Domingo, vamos dar um almoço aos amigos mais próximos e a nossa família.
Família essa que não para de nos surpreender, para o bem e para o mal. O que mais me destrói por dentro é saber que, certas atitudes, vem de quem mais te conhece, de quem vc mais confia, de quem vc mais ama. Casar e não ter seus pais por perto é uma dor que poucas pessoas vão passar.
Se minha vida fosse um filme, domingo, durante a cerimônia, meu pai apareceria, me abraçaria e diria: 'está tudo acabado, eu estou bem, vamos ficar juntos de novo'. Mas nem sempre a vida é feita de finais completamente felizes.
Apesar do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo não ser aceito AINDA no Brasil, fazer a escritura de União Estável foi um passo muito grande nas nossas vidas. Me senti realmente casando, somos responsáveis uma pela outra, mediante o querer das duas.
O tratamento no cartório foi o melhor de todos. Optamos por não faze-lo em Suzano e imediações por conta do medo de tornar esse momento um trauma; não queríamos, de forma alguma, sofrer nenhum tipo de preconceito ao chegar no cartório. Optamos pelo 26o. Tabelião de Notas, na Praça João Mendes, em SP. Lá, o tabelião já realiza esse tipo de contrato há 7 anos, por entender a necessidade de duas pessoas que se amam garantir seus direitos e deveres, já que elas já estão juntas há tempos.
Ganhamos até bem-casados e champangne. Chiquérrimo.
Hoje, eu e a Cibele somos casadas e responsáveis uma pela outra, como se fosse no civil mesmo. E aguardamos apenas as coisas ficarem mais claras para pedirmos a conversão em casamento civil e adotar o nome uma da outra.
Domingo, vamos dar um almoço aos amigos mais próximos e a nossa família.
Família essa que não para de nos surpreender, para o bem e para o mal. O que mais me destrói por dentro é saber que, certas atitudes, vem de quem mais te conhece, de quem vc mais confia, de quem vc mais ama. Casar e não ter seus pais por perto é uma dor que poucas pessoas vão passar.
Se minha vida fosse um filme, domingo, durante a cerimônia, meu pai apareceria, me abraçaria e diria: 'está tudo acabado, eu estou bem, vamos ficar juntos de novo'. Mas nem sempre a vida é feita de finais completamente felizes.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Alguns Sonhos Indevidos
Anteontem eu tive um sonho.
Péssimo a gente não ter a condição de escolher os nossos sonhos. Um vez, quando eu era criança, assintindo 'O Mundo de Beakman', ele ensinou como sonhar com o que vc deseja: só pensar muito, muito mesmo, no que vc quer sonhar, e o cérebro ficaria 'ligado' a essa imagem, fazendo com que vc sonhasse com ela. Eu, que nunca fui uma criança com muitas paixões platônicas, sempre sonhava com um novo Kinder Ovo que meu pai poderia me trazer no dia seguinte.
Mas, na verdade, isso nunca funcionou muito comigo.
Eu sonhei que meu pai me abraçava, dizia que tudo ia ficar bem e que nós dois, juntos, íamos superar tudo, sem mais ofensas. Acordei. Meu estômago doía, meu peito doía, uma dor muito parecida com o dia depois da briga. Me senti tão derrotada e tão ofendida quanto naquela sexta.
Sonhos que, na verdade, não ajudam em nada.
Não ando muito bem desde que isso aconteceu. Não há um momento em que eu não pense nele e o quanto deve estar sofrendo; o quanto eu nunca desejei faze-lo sofrer, muito pelo contrário, eu tinha pavor em decepciona-lo e até tive que fazer terapia para entender os meus desejos e viver a minha vida, e não a vida que ele poderia querer pra mim, caso ele quisesse. Meu pai nunca foi opressor nesse sentido, sempre me deixou livre para viver a minha vida como eu queria, a única vez que ele se opôs, aconteceu a maior merda do mundo.
A ausência do meu pai é a maior dor do mundo pra mim. Por que ele mentiu quando me prometeu amor incondicional, irrestrito, sem nunca me cobrar nada? Ele amava uma filha heterossexual, que prometia pra ele netos e um casamento que, foda-se feliz ou não, mas que representasse a continuidade do que ele entende como família. E não entende como eu, menina criada como menina, com um 'exemplo heterossexual', com uma família formada, com amor e atenção, possa ter me apaixonado e amado uma outra mulher?
Peço que, um dia, essa dor cesse. Pra mim, é felicidade está em encontrar essa tranquilidade com meu pai. Torço todos os dias para que isso aconteça o mais rápido possível. Me sinto devastada por dentro. Tento não chorar sempre, tento não postar essas coisas nesse blog, que tá ficando cada dia mais choroso e lamentoso...rs. Mas é o único lugar que posso dizer, sempre e irrestrito, que sinto morrendo a cada dia pela falta do meu pai.
Péssimo a gente não ter a condição de escolher os nossos sonhos. Um vez, quando eu era criança, assintindo 'O Mundo de Beakman', ele ensinou como sonhar com o que vc deseja: só pensar muito, muito mesmo, no que vc quer sonhar, e o cérebro ficaria 'ligado' a essa imagem, fazendo com que vc sonhasse com ela. Eu, que nunca fui uma criança com muitas paixões platônicas, sempre sonhava com um novo Kinder Ovo que meu pai poderia me trazer no dia seguinte.
Mas, na verdade, isso nunca funcionou muito comigo.
Eu sonhei que meu pai me abraçava, dizia que tudo ia ficar bem e que nós dois, juntos, íamos superar tudo, sem mais ofensas. Acordei. Meu estômago doía, meu peito doía, uma dor muito parecida com o dia depois da briga. Me senti tão derrotada e tão ofendida quanto naquela sexta.
Sonhos que, na verdade, não ajudam em nada.
Não ando muito bem desde que isso aconteceu. Não há um momento em que eu não pense nele e o quanto deve estar sofrendo; o quanto eu nunca desejei faze-lo sofrer, muito pelo contrário, eu tinha pavor em decepciona-lo e até tive que fazer terapia para entender os meus desejos e viver a minha vida, e não a vida que ele poderia querer pra mim, caso ele quisesse. Meu pai nunca foi opressor nesse sentido, sempre me deixou livre para viver a minha vida como eu queria, a única vez que ele se opôs, aconteceu a maior merda do mundo.
A ausência do meu pai é a maior dor do mundo pra mim. Por que ele mentiu quando me prometeu amor incondicional, irrestrito, sem nunca me cobrar nada? Ele amava uma filha heterossexual, que prometia pra ele netos e um casamento que, foda-se feliz ou não, mas que representasse a continuidade do que ele entende como família. E não entende como eu, menina criada como menina, com um 'exemplo heterossexual', com uma família formada, com amor e atenção, possa ter me apaixonado e amado uma outra mulher?
Peço que, um dia, essa dor cesse. Pra mim, é felicidade está em encontrar essa tranquilidade com meu pai. Torço todos os dias para que isso aconteça o mais rápido possível. Me sinto devastada por dentro. Tento não chorar sempre, tento não postar essas coisas nesse blog, que tá ficando cada dia mais choroso e lamentoso...rs. Mas é o único lugar que posso dizer, sempre e irrestrito, que sinto morrendo a cada dia pela falta do meu pai.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
As Histórias
E um dia o príncipe acordou, salvou a princesa e eles foram felizes para sempre. Eis que estamos tão acostumados a este ideal medieval que às vezes nem nos damos conta do quão absurdo é este contexto.
Como diria aquela canção na voz de Fernanda Takai: “Eu queria tanto encontrar uma pessoa como eu”. Diariamente vemos filmes e novelas mostrando grandes histórias de amor entre um homem e uma mulher, todos os desafios que essa relação impõe ao casal aventureiro e o quanto ambos se amam e buscam se juntar, diariamente sofremos esta lavagem cerebral que nos impõe um padrão social extremamente medieval e cretino.
Estão tão acostumados com essa desvalorização do amor que nem se dão conta que 25% dos casamentos terminam em divórcio no Brasil de hoje, são mais de 230 mil casamentos terminando em divórcio.
Ouvi de um amigo há alguns dias a velha afirmação: “Você foi feito pra reproduzir, você e uma mulher, pronto”; Espantei-me em perceber que realmente ainda existem pessoas com tal pensamento e a cada dia que passa percebo que não são poucas e estão muito próximas de mim. Sorte a minha não me importar com a opinião alheia. Quando se decide ter uma relação com alguém do mesmo sexo, não há nada mais complicado do que, primeiro, as mudanças no conceito “relação”, pois estamos tão acostumados com aquele padrão de outrora que temos que reaprender a gostar de alguém e, depois, saber lidar com as interferências externas, pois é impossível não se pegar pensando no que as pessoas vão achar, no como seus pais vão reagir e o quanto terá que discutir consigo mesmo.
Ainda não tive uma relação homossexual de forma concreta, mas estou chegando a ela aos poucos. Qualquer dia desses hei de saber qual a reação dos meus pais, tenho a sensação que saberão que estou fazendo o que é melhor pra mim, eles sempre souberam que escolho o que acredito que me faz bem. Vejo casos em que houve surpresas sobre essas reações, por isso ainda receio este dia.
Então o máximo que posso dizer - talvez numa forma de conselho para todos – é que, acima de qualquer preferência sexual, existe algo chamado sentimento, eis o que mais deve ser levado em conta não apenas nas relações interpessoais, mas em todas as escolhas de nossa vida.
Ator, Dramaturgo, Escritor e futuro Artista Visual, gaúcho provisório e por opção.
domingo, 17 de julho de 2011
Mudanças
Hoje fazem 10 dias que não vejo meu pai.
Essa semana foi a mais terrível. Tudo aconteceu.
Olhei para mim mesma e me vi morando num apartamento que já não era mais o meu lar. O desespero de mudar dali e sair da cidade que me engolia foi mais forte e, no mesmo dia que experimentei meu vestido de noiva, liguei para a Cibele e disse a ela: vamos mudar hoje. As 19h30 tinham 6 amigos lá na Baruel me ajudando a descer todas as coisas, da geladeira a TV, de sacos de roupa a caixas de copos e garrafas. Minha mudança encheu um caminhão baú médio. Fiquei chocada com a quantidade de coisas que eu e a Cibele já temos, com menos de dois anos de relacionamento.
Aqui em Poá, as coisas são bem diferentes. A casa é pequena, tem 2 cômodos, quarto e cozinha. Um banheiro enorme, porém estreito e um quintal dos sonhos. Eu detesto mudança. Já me mudei de casa tantas vezes na minha vida que é quase uma espécie de trauma. E em todas elas, eu perdi coisas importantes que afetaram minha trajetória. Em uma delas, nunca me esqueço, perdi todos os meus brinquedos. Eu tinha 07 anos e todos os meus brinquedos foram colocados em um galpão, já que a casa era pequena demais para abriga-los, a mim e ao meu irmão, na época com 04 meses. Semanas depois, roubaram todos. Minhas bonecas, meus ursos, minha sorveteria e chocolateria, tudo foi levado. Talvez isso esteja em mim até hoje. Por isso, eu fiz questão de separar, minhas taças de cerveja, de vinho, meus copos favoritos, e embrulhar muito bem minhas garrafas de cachaça e cerveja que coleciono. Tenho pavor de perder minhas coisas.
Ao entrar na nossa casa, senti um dos maiores alívios da vida. Talvez por estar longe de Suzano e de tudo aquilo que estou abominando no momento; talvez por estar longe dos olhos e da presença do meu pai; talvez por me sentir escondida. Aqui é um bairro residencial, cheio de crianças e mães gritantes, reformas e meninos soltando pipa. Um retorno as coisas que eu sempre adorei, e que não tinha desde que minha família optou por morar perto dos centros.
Eu e a Cibele trabalhamos árduamente, sem parar, por 3 dias pra deixar a casa habitável. E neste meio, nos casamos (mas isso é razão para outro post). Pensei no meu pai sem parar nesses dias todos, como ele gostaria da casa, como ele acharia melhor e mais gostosa. Como ele me faz falta. Chorei uma vez, rapidamente, e logo me veio que não tinha tempo pra chorar, ainda tinha 17 sacolas para desfazer. Depois, a noite, um sentimento de pesar me bateu. Uma pena meu pai não reconhecer o nosso esforço de fazer as coisas melhorarem, de como nós somos comuns, de como lutamos pra ter as nossas coisas. Fiquei chateada por não ter esse reconhecimento.
Hoje, domingo, finalmente esvaziamos o apartamento. Apesar de ter deixado lá as duas (beeechas) mais amorosas e lindas do mundo, e com elas, parte do meu coração, os bons ventos da mudança sopram no Jd. Medina, em Poá. Eu e minha família estamos ansiosas para o novo começo, para a nova casa, novos vizinhos. Me sinto leve, mas ainda não plena. Ainda falta ele.
Enquanto isso, eu espero.
Essa semana foi a mais terrível. Tudo aconteceu.
Olhei para mim mesma e me vi morando num apartamento que já não era mais o meu lar. O desespero de mudar dali e sair da cidade que me engolia foi mais forte e, no mesmo dia que experimentei meu vestido de noiva, liguei para a Cibele e disse a ela: vamos mudar hoje. As 19h30 tinham 6 amigos lá na Baruel me ajudando a descer todas as coisas, da geladeira a TV, de sacos de roupa a caixas de copos e garrafas. Minha mudança encheu um caminhão baú médio. Fiquei chocada com a quantidade de coisas que eu e a Cibele já temos, com menos de dois anos de relacionamento.
Aqui em Poá, as coisas são bem diferentes. A casa é pequena, tem 2 cômodos, quarto e cozinha. Um banheiro enorme, porém estreito e um quintal dos sonhos. Eu detesto mudança. Já me mudei de casa tantas vezes na minha vida que é quase uma espécie de trauma. E em todas elas, eu perdi coisas importantes que afetaram minha trajetória. Em uma delas, nunca me esqueço, perdi todos os meus brinquedos. Eu tinha 07 anos e todos os meus brinquedos foram colocados em um galpão, já que a casa era pequena demais para abriga-los, a mim e ao meu irmão, na época com 04 meses. Semanas depois, roubaram todos. Minhas bonecas, meus ursos, minha sorveteria e chocolateria, tudo foi levado. Talvez isso esteja em mim até hoje. Por isso, eu fiz questão de separar, minhas taças de cerveja, de vinho, meus copos favoritos, e embrulhar muito bem minhas garrafas de cachaça e cerveja que coleciono. Tenho pavor de perder minhas coisas.
Ao entrar na nossa casa, senti um dos maiores alívios da vida. Talvez por estar longe de Suzano e de tudo aquilo que estou abominando no momento; talvez por estar longe dos olhos e da presença do meu pai; talvez por me sentir escondida. Aqui é um bairro residencial, cheio de crianças e mães gritantes, reformas e meninos soltando pipa. Um retorno as coisas que eu sempre adorei, e que não tinha desde que minha família optou por morar perto dos centros.
Eu e a Cibele trabalhamos árduamente, sem parar, por 3 dias pra deixar a casa habitável. E neste meio, nos casamos (mas isso é razão para outro post). Pensei no meu pai sem parar nesses dias todos, como ele gostaria da casa, como ele acharia melhor e mais gostosa. Como ele me faz falta. Chorei uma vez, rapidamente, e logo me veio que não tinha tempo pra chorar, ainda tinha 17 sacolas para desfazer. Depois, a noite, um sentimento de pesar me bateu. Uma pena meu pai não reconhecer o nosso esforço de fazer as coisas melhorarem, de como nós somos comuns, de como lutamos pra ter as nossas coisas. Fiquei chateada por não ter esse reconhecimento.
Hoje, domingo, finalmente esvaziamos o apartamento. Apesar de ter deixado lá as duas (beeechas) mais amorosas e lindas do mundo, e com elas, parte do meu coração, os bons ventos da mudança sopram no Jd. Medina, em Poá. Eu e minha família estamos ansiosas para o novo começo, para a nova casa, novos vizinhos. Me sinto leve, mas ainda não plena. Ainda falta ele.
Enquanto isso, eu espero.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Eu já Sabia...
- Pai eu estou namorando. Com um menino.
Suspiro uma tensão aliviada.
O Pai pára.
A mãe, fazendo o almoço, chora; dessa vez não é pela cebola picada.
Esta é a situação: o Filho está (dis)posto em pé ao lado da geladeira branca, o Pai parado na porta de alumínio que dá para fora, para o quintal, a Mãe chora. Era como se o tempo tivesse paralisado, cada segundo: eterno. Pai e Filho se olham, este último desvia ao Máximo o olhar entristecido e envergonhado, como trilha sonora o choro soluçante da Mãe, que estava em pé, no balcão de pedra cinza do lado da pia.
Após o longo e torturante silêncio entre Pai e Filho o primeiro responde:
- Eu já sabia!
A partir deste momento as palavras trocadas pelos dois se tornaram extintas. Conversas: monossilábicas e sem olhares.
Assim, nesta situação, é que grande maioria dos homossexuais deixam suas famílias, perdem o apoio, ficam sem chão. Sai à rua sem destino, o futuro é incerto. “O futuro não é mais como era antigamente”, os planos todos se explodiram. Comigo não foi assim, o apoio zero, mas persisti, agüentei. Passaram-se meses sendo “rejeitado”, sem conseguir uma palavra doce. A Mãe, aquela que chorava na cozinha, passou a chorar pela sala, quarto, banheiro, menos na rua, acontecesse isso os vizinhos saberiam. A Irmã, que até então não entrou no relato, disse que o/me amava e que não adiantava ficar distante (para os irmãos sempre é menos difícil). O Pai, aquele calado na porta de alumínio, continuou calado por outras regiões da casa, ele falava era na sala do psicólogo.
Depois de 6 meses de terapia aconteceu o primeiro diálogo decente entre Pai e Filho:
“Não sei se você sabe, mas eu estou indo no psicólogo...
... Como Ele está? E a Família Dele?...
...Eu te amo...
...Olha: não vai sair por aí vestido de mulher.”
“Pode deixar Pai, não sou assim. Também te amo!”
Felipe Milani
ator e bailarino
Felipe Milani
ator e bailarino
sábado, 9 de julho de 2011
Sobre Como Esquecer
Estou entrando em uma fase da minha vida que todo mundo chama de transição. Vou oficializar a minha relação com minha noiva, vamos mudar de casa, de cidade, de planos, vamos adotar dois bebês (nossas gatinhas Syl e Beatrice) e tudo se coloca de forma tão nova pra mim. Sinto-me tão ansiosa para entrar nessa fase, onde minha família começa a tomar corpo e vida. Tudo o que uma garota sempre sonha é não ser sozinha. Isso, com certeza, eu já conquistei.
Hoje, conversando com amigas sobre a situação com meu pai, eu percebo que quanto mais eu falo, mais eu consigo olhar essa situação com racionalidade. Percebo também a imensidão que isso tem de importância e do quanto o meu trauma está mais vivo do que nunca, por isso flashes da quinta fatídica ficam passando a todo o momento na minha cabeça. Minha indignação vai se tranformando em mágoa. Não sei mais se tenho raiva ou tristeza, se esse misto de sentimentos me faz bem ou mal, se vai passar... sei que esses sentimentos não me deixam viver verdadeiramente todas essas mudanças tão incríveis que vou passar.
Seria mentira se eu dissesse que estou completamente feliz, e me sinto completamente injusta com a Cibele. Ela é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, o sentimento mais lindo e o maior amor do mundo. Ela me aceita, com todos os meus defeitos e minhas chatices, minhas manias e bagunças. E eu a amo tanto, que não acho justo não estar plenamente feliz com o andamento das coisas. E não é, absolutamente, nada em relação ao nosso relacionamento. Sou eu e a minha necessidade máxima de aprovação da figura paterna, somente curável na terapia.
Como esquecer uma vida feliz ao lado de alguém que, simplesmente, não te quer mais? Como entender e perdoar bravamente ofensas, calúnias, xingos e ódio de alguém que sempre te apoiou? Como faze-lo entender que a "opção" pela homossexualidade me torna uma mazoquista, já que é mais fácil no mundo ser hétero do que gay? Não se opta pelo sofrimento, a não ser que eu optasse por ele.
Ontem, finalizando o meu dia conversando com um amigo de longa data, disse que admirava os gays assumidos e a sua coragem, mas admirava mais ainda e compreendia totalmente os que são enrustidos. Não é fácil a rejeição. Não mesmo. Sei que o sistema é responsável pela homofobia, mas será também o sistema responsável pelo frágil amor que meu pai diz que sentia por mim?
Hoje, conversando com amigas sobre a situação com meu pai, eu percebo que quanto mais eu falo, mais eu consigo olhar essa situação com racionalidade. Percebo também a imensidão que isso tem de importância e do quanto o meu trauma está mais vivo do que nunca, por isso flashes da quinta fatídica ficam passando a todo o momento na minha cabeça. Minha indignação vai se tranformando em mágoa. Não sei mais se tenho raiva ou tristeza, se esse misto de sentimentos me faz bem ou mal, se vai passar... sei que esses sentimentos não me deixam viver verdadeiramente todas essas mudanças tão incríveis que vou passar.
Seria mentira se eu dissesse que estou completamente feliz, e me sinto completamente injusta com a Cibele. Ela é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, o sentimento mais lindo e o maior amor do mundo. Ela me aceita, com todos os meus defeitos e minhas chatices, minhas manias e bagunças. E eu a amo tanto, que não acho justo não estar plenamente feliz com o andamento das coisas. E não é, absolutamente, nada em relação ao nosso relacionamento. Sou eu e a minha necessidade máxima de aprovação da figura paterna, somente curável na terapia.
Como esquecer uma vida feliz ao lado de alguém que, simplesmente, não te quer mais? Como entender e perdoar bravamente ofensas, calúnias, xingos e ódio de alguém que sempre te apoiou? Como faze-lo entender que a "opção" pela homossexualidade me torna uma mazoquista, já que é mais fácil no mundo ser hétero do que gay? Não se opta pelo sofrimento, a não ser que eu optasse por ele.
Ontem, finalizando o meu dia conversando com um amigo de longa data, disse que admirava os gays assumidos e a sua coragem, mas admirava mais ainda e compreendia totalmente os que são enrustidos. Não é fácil a rejeição. Não mesmo. Sei que o sistema é responsável pela homofobia, mas será também o sistema responsável pelo frágil amor que meu pai diz que sentia por mim?
sexta-feira, 8 de julho de 2011
24 horas
Passei grande parte do dia chorando, sentindo profundamente a dor do abandono.
Eu e meu irmão estamos aqui na minha casa, tentando saber o que será de nós (principalmente dele, que ainda mora na casa dos meus pais) depois do avalanche de absurdos do meu pai. No post anterior, eu nem me atentei a contar sobre a relação delicada que ele e meu irmão, de 19 anos, tem. Eu e minha mãe passamos grande parte do nosso tempo tentando mediar uma situação que nunca foi boa.
Não vou entrar nessa situação pois não pretendo expor meu irmão com uma história que só pertence a ele.
A dor física da perda é real. Nem vou me apegar ao meu peito pois pode parecer bobagem piegas; meu rim doeu o dia todo e meu estômago esteve prestes a ter uma crise gástrica. As palavras horrorosas dele ficaram soando no meu ouvido, o dedo em histe no meu rosto, os gritos, o choro da minha mãe, o meu coração saindo pela boca. Durante todo o dia eu sentia meu coração dando disparadas sem ter razão, suspiros cortados de choro, sustos sem ter o pq.
As experiências de um homossexual dentro de casa podem ser devastadoras. Eu tenho meus amigos, meu irmão, minha mãe e minha noiva que me ajudam todos os dias a lidar com a rejeição do homem que mais amei na vida. A falta do meu pai é dilacerante. Ela sussita em mim o que há de pior nos meus sentimentos, e esses são adormecidos pelo amor que eu tenho dentro da minha casa. A rejeição da família é responsável por 95% dos suicídios entre gays e lésbicas, que já tem, mediante a situação de suas vidas, mais facilidade de desenvolver doenças como esquizofrenia e depressão.
Eu sinto uma coisinha mole aqui dentro. É como se nada sólido mais houvesse. Meu pai sempre teve o dom de me fazer sentir, as maiores alegrias e as maiores tristezas. Ele me conhece como ninguém, e estamos ligados por alguma coisa que nem eu e nem ele sabemos explicar.
É como eu acabei de dizer prum amigo meu: "por mais que eu queira, nunca conseguirei odia-lo".
Agora, são 1h56 do dia 09 de julho. Já fazem 6 horas que eu não choro. Algumas coisas passam a ser esquecidas pelo meu cérebro, que tem o mágico poder de apagar as coisas que me fazem muito mal. Mas alguma coisa falta aqui, e com certeza é ele.
Eu e meu irmão estamos aqui na minha casa, tentando saber o que será de nós (principalmente dele, que ainda mora na casa dos meus pais) depois do avalanche de absurdos do meu pai. No post anterior, eu nem me atentei a contar sobre a relação delicada que ele e meu irmão, de 19 anos, tem. Eu e minha mãe passamos grande parte do nosso tempo tentando mediar uma situação que nunca foi boa.
Não vou entrar nessa situação pois não pretendo expor meu irmão com uma história que só pertence a ele.
A dor física da perda é real. Nem vou me apegar ao meu peito pois pode parecer bobagem piegas; meu rim doeu o dia todo e meu estômago esteve prestes a ter uma crise gástrica. As palavras horrorosas dele ficaram soando no meu ouvido, o dedo em histe no meu rosto, os gritos, o choro da minha mãe, o meu coração saindo pela boca. Durante todo o dia eu sentia meu coração dando disparadas sem ter razão, suspiros cortados de choro, sustos sem ter o pq.
As experiências de um homossexual dentro de casa podem ser devastadoras. Eu tenho meus amigos, meu irmão, minha mãe e minha noiva que me ajudam todos os dias a lidar com a rejeição do homem que mais amei na vida. A falta do meu pai é dilacerante. Ela sussita em mim o que há de pior nos meus sentimentos, e esses são adormecidos pelo amor que eu tenho dentro da minha casa. A rejeição da família é responsável por 95% dos suicídios entre gays e lésbicas, que já tem, mediante a situação de suas vidas, mais facilidade de desenvolver doenças como esquizofrenia e depressão.
Eu sinto uma coisinha mole aqui dentro. É como se nada sólido mais houvesse. Meu pai sempre teve o dom de me fazer sentir, as maiores alegrias e as maiores tristezas. Ele me conhece como ninguém, e estamos ligados por alguma coisa que nem eu e nem ele sabemos explicar.
É como eu acabei de dizer prum amigo meu: "por mais que eu queira, nunca conseguirei odia-lo".
Agora, são 1h56 do dia 09 de julho. Já fazem 6 horas que eu não choro. Algumas coisas passam a ser esquecidas pelo meu cérebro, que tem o mágico poder de apagar as coisas que me fazem muito mal. Mas alguma coisa falta aqui, e com certeza é ele.
Destruição.
Como são frágeis as relações.
Ontem, ao decretar o fim da minha relação com meu pai, eu percebi que tudo o que tínhamos construido nesses 26 anos de convivência havia sido absolutamente nada. Eu sei que aos 26 anos já não se pode esperar muita coisa; o que mais tem são amigos com problemas de convivência com seus pais, seja por qual razão for, mas principalmente pela diferença de pensamento e de rotina. Eu e o meu pai não. Nós nos dávamos bem, conseguia me enxergar nele e perceber seus defeitos sem que isso me incomodasse; afinal, eu também os tenho. Além dos 1m86 de força, num homem negro e de feições duras, eu enxergava amor e fragilidade. Sentia o amor dele por mim, a devoção, e me preocupava, mesmo não estando mais na sua casa, em continuar sendo a filha atenciosa e que, em todo o lugar que ia, o comunicava, por vontade própria, não conseguia ser de outro jeito.
Lógico que tínhamos problemas. Nossa relação nunca foi perfeita, mas sempre foi sincera. E eu e ele nunca, absolutamente nunca, guardávamos mágoas um do outro. Era sentir e pronto, acabou. Saí de casa há 2 anos e meio pois não acreditava conseguir voltar a viver com ele, pois nós nos víamos 1 vez por semana por conta da distância do trabalho dele e a minha vida de atriz. Quando ele entrava de férias ou licença, nós (eu, meu irmão e minha mãe) não tínhamos espaço em casa, a TV, a sala, o banheiro, tudo era tomado pelo seu cigarro e pelas suas vontades. Eu e meu irmão tentávamos não brigar pra não afetar o seu descanso, nem brincar, nem fazer nada. Toda a casa se movimentava para o bem estar dele. Eu vivi nisso por 11 anos, sem reclamar, mas ao fazer 24 anos, o desejo de ter meu espaço e meus horários sem cobrança gritou e eu saí. Ele sofreu e eu sofri. Me fiz forte pra mostrar a ele que estava decidida e que não voltaria atrás. Nem se não desse certo, eu voltaria. Deixei meu quarto intacto para mostrar a ele que eu não tinha abandonado a sua casa, mas sim, criado outro lugar que seria meu, e que sempre voltaria. Voltei várias vezes. Acertava meu horário para que, todas as quintas, estivesse lá. E ele também estava. Fazia janta especial para mim, baião de dois, caldo de mocotó, salada de escarola e marisco, todas aquelas coisas que eu adorava e só ele fazia. E fazia questão de me servir, todas as vezes. Eu sorri, todas as vezes, feliz pois ele estava feliz.
Hoje, eu estou com 26 anos. Faltam 3 meses para completar 27. Estou mais próxima dos 30 do que dos 20, o que me mostra que, porra, tô crescendo. Não sou mais uma adolescente, as minhas amigas e amigos, alguns estão casados, outros, namoram firme. Eu também tenho alguém. A Cibele entrou na minha vida depois de 6 meses que eu tinha saído de casa. Nunca me imaginei com uma menina, mas também nunca rejeitei a idéia. Era atração, depois, virou um grande sentimento que eu e ela nem sabemos como ficou assim. Minha casa é cheia de amor, de carinho, nossa relação é tão cheia de cumplicidade, de companherismo, tão livre de possessões e tristezas. Finalmente, alguém que me complementa. Nada na minha vida é tão sagrado e intocável quanto nós duas. E isso, me (nos) torna especial. Eu me preparei para ter alguém, e a minha caminhada foi solitária. Minha terapeuta ajudou a entender algumas coisas, como me aceitar como alguém sexual, mas em nenhum momento ela me indicou para esse ou aquele direcionamento afetivo (claro, pq isso não existe). Meu pai nunca, em nenhum momento, se meteu na minha vida sentimental, íntima ou sexual. Nunca me cobrou namorados, nunca me perguntou nada. Apenas quando eu estava depressiva por conta da não-correspondência dos meus amores ele vinha me dar colo, mas também sem nunca dizer uma palavra, sem nem perguntar o que estava havendo. Então, seria normal eu começar a namorar com uma menina e não dizer nada pra ninguém, muito menos pra ele.
Ele me dizia: "eu sou seu pai e te amo pra sempre", "vou te amar independente do que aconteça" ou até um "filha, te amo. Não esquece". Eu nunca esqueci. Pensava que meu pai me amava por mim, por ter sido a filha que ele sempre pediu, ele, pai orgulhoso de uma filha escritora que sempre correu atrás dos seus sonhos e que hoje, mora sozinha, paga a suas contas e tem um carro zero. Pai de uma filha heterossexual.
Até o determinado momento em que ele percebe a aliança em meu dedo.
Todo o processo de entender o tempo de cada um, entender que isso é um baque pra qualquer pai tradicional, entender que ele está agressivo e introspectivo, e que isso faz parte. Entender o período da raiva, do ódio, da culpa... essa fase que não passa nunca.
Eu nunca o obriguei a conviver com a Cibele; mas eu sou sua filha, e lá moram minha mãe e meu irmão, pessoas que eu também amo e que não sou obrigada a me afastar. Eu ouvi as piores atrocidades do meu pai da primeira vez em que nos vimos depois dele saber a verdade. Não conseguia falar nada, chorei, chorei e chorei, sem saber o que fazer pra que ele se sentisse menos mal. Eu lutei e venci contra a culpa de estar apaixonada por uma mulher, culpa essa que ele insistia em colocar em mim. Fui embora e decidi continuar a frequentar a minha casa, para mostrar a ele que isso é uma coisa natural, e que eu e o meu caráter não havia mudado. Continuava sendo a sua filha e a nossa história era a mesma.
Desde então, não houve nunca um momento em que eu estava em sua casa que ele não me ofendesse. Seja com palavras, seja com os 'tapinhas' nas costas que ele me dava mostrando falta de afetividade, tudo sempre foi uma apunhalada no meu coração, que eu sempre fingia que estava tudo bem. Numa briga, ele me chamou de "subversiva", "terrorista", "ladra", "bandida" entre outros, por ser a favor da libertação do Césare Battisti, por ser de esquerda e ser contrária ao modo de governo no Estado de SP. Conversa essa que terminou com uma acusação de estar 'ausente' e ao perguntar o porque, uma frase 'eu NUNCA vou aceitar a sua condição' encerrou o assunto e eu fui embora. Chorei, mas isso já estava tão recorrente que eu logo parei.
Tenho chorado pela condição da minha relação com meu pai há muitos meses. Não há um dia que eu não chore, e ontem, ficou claro que ele não se importa. Ao dizer coisas piores do que da primeira vez, eu não acredito mais que haja alguma possibilidade dele um dia aceitar. Não quero mais dizeres do gênero: "dá um tempo pra ele, uma hora ele vai aceitar", não tem mais importância ele aceitar ou não. Ontem, ele pisou no meu coração, destruiu a nossa história e jogou no lixo todas as nossas lembranças. Não posso, de forma alguma relatar aqui as coisas ditas naquela discussão, e nada que eu diga vai fazer com que se personalize a grosseria, a abominação, o horror de uma filha ao ver seu pai classificar a sua relação com os nomes que ele usou. Toda a promessa de amor eterno, acabou pois ele não aceita sua filha não depender de um pênis para viver. E eu não fiz nada de errado, somente amo, e hoje vejo que a pior coisa que eu pude fazer foi ama-lo e insistir nessa relação por amor a ele e a nossa história juntos.
Por um momento, ontem, eu achei que meu pai tinha voltado pra mim. Mas quem ama não abandona.
Esse blog visa o desabafo de uma filha que está órfã de um pai que mora há 5 minutos da sua casa.
Ontem, ao decretar o fim da minha relação com meu pai, eu percebi que tudo o que tínhamos construido nesses 26 anos de convivência havia sido absolutamente nada. Eu sei que aos 26 anos já não se pode esperar muita coisa; o que mais tem são amigos com problemas de convivência com seus pais, seja por qual razão for, mas principalmente pela diferença de pensamento e de rotina. Eu e o meu pai não. Nós nos dávamos bem, conseguia me enxergar nele e perceber seus defeitos sem que isso me incomodasse; afinal, eu também os tenho. Além dos 1m86 de força, num homem negro e de feições duras, eu enxergava amor e fragilidade. Sentia o amor dele por mim, a devoção, e me preocupava, mesmo não estando mais na sua casa, em continuar sendo a filha atenciosa e que, em todo o lugar que ia, o comunicava, por vontade própria, não conseguia ser de outro jeito.
Lógico que tínhamos problemas. Nossa relação nunca foi perfeita, mas sempre foi sincera. E eu e ele nunca, absolutamente nunca, guardávamos mágoas um do outro. Era sentir e pronto, acabou. Saí de casa há 2 anos e meio pois não acreditava conseguir voltar a viver com ele, pois nós nos víamos 1 vez por semana por conta da distância do trabalho dele e a minha vida de atriz. Quando ele entrava de férias ou licença, nós (eu, meu irmão e minha mãe) não tínhamos espaço em casa, a TV, a sala, o banheiro, tudo era tomado pelo seu cigarro e pelas suas vontades. Eu e meu irmão tentávamos não brigar pra não afetar o seu descanso, nem brincar, nem fazer nada. Toda a casa se movimentava para o bem estar dele. Eu vivi nisso por 11 anos, sem reclamar, mas ao fazer 24 anos, o desejo de ter meu espaço e meus horários sem cobrança gritou e eu saí. Ele sofreu e eu sofri. Me fiz forte pra mostrar a ele que estava decidida e que não voltaria atrás. Nem se não desse certo, eu voltaria. Deixei meu quarto intacto para mostrar a ele que eu não tinha abandonado a sua casa, mas sim, criado outro lugar que seria meu, e que sempre voltaria. Voltei várias vezes. Acertava meu horário para que, todas as quintas, estivesse lá. E ele também estava. Fazia janta especial para mim, baião de dois, caldo de mocotó, salada de escarola e marisco, todas aquelas coisas que eu adorava e só ele fazia. E fazia questão de me servir, todas as vezes. Eu sorri, todas as vezes, feliz pois ele estava feliz.
Hoje, eu estou com 26 anos. Faltam 3 meses para completar 27. Estou mais próxima dos 30 do que dos 20, o que me mostra que, porra, tô crescendo. Não sou mais uma adolescente, as minhas amigas e amigos, alguns estão casados, outros, namoram firme. Eu também tenho alguém. A Cibele entrou na minha vida depois de 6 meses que eu tinha saído de casa. Nunca me imaginei com uma menina, mas também nunca rejeitei a idéia. Era atração, depois, virou um grande sentimento que eu e ela nem sabemos como ficou assim. Minha casa é cheia de amor, de carinho, nossa relação é tão cheia de cumplicidade, de companherismo, tão livre de possessões e tristezas. Finalmente, alguém que me complementa. Nada na minha vida é tão sagrado e intocável quanto nós duas. E isso, me (nos) torna especial. Eu me preparei para ter alguém, e a minha caminhada foi solitária. Minha terapeuta ajudou a entender algumas coisas, como me aceitar como alguém sexual, mas em nenhum momento ela me indicou para esse ou aquele direcionamento afetivo (claro, pq isso não existe). Meu pai nunca, em nenhum momento, se meteu na minha vida sentimental, íntima ou sexual. Nunca me cobrou namorados, nunca me perguntou nada. Apenas quando eu estava depressiva por conta da não-correspondência dos meus amores ele vinha me dar colo, mas também sem nunca dizer uma palavra, sem nem perguntar o que estava havendo. Então, seria normal eu começar a namorar com uma menina e não dizer nada pra ninguém, muito menos pra ele.
Ele me dizia: "eu sou seu pai e te amo pra sempre", "vou te amar independente do que aconteça" ou até um "filha, te amo. Não esquece". Eu nunca esqueci. Pensava que meu pai me amava por mim, por ter sido a filha que ele sempre pediu, ele, pai orgulhoso de uma filha escritora que sempre correu atrás dos seus sonhos e que hoje, mora sozinha, paga a suas contas e tem um carro zero. Pai de uma filha heterossexual.
Até o determinado momento em que ele percebe a aliança em meu dedo.
Todo o processo de entender o tempo de cada um, entender que isso é um baque pra qualquer pai tradicional, entender que ele está agressivo e introspectivo, e que isso faz parte. Entender o período da raiva, do ódio, da culpa... essa fase que não passa nunca.
Eu nunca o obriguei a conviver com a Cibele; mas eu sou sua filha, e lá moram minha mãe e meu irmão, pessoas que eu também amo e que não sou obrigada a me afastar. Eu ouvi as piores atrocidades do meu pai da primeira vez em que nos vimos depois dele saber a verdade. Não conseguia falar nada, chorei, chorei e chorei, sem saber o que fazer pra que ele se sentisse menos mal. Eu lutei e venci contra a culpa de estar apaixonada por uma mulher, culpa essa que ele insistia em colocar em mim. Fui embora e decidi continuar a frequentar a minha casa, para mostrar a ele que isso é uma coisa natural, e que eu e o meu caráter não havia mudado. Continuava sendo a sua filha e a nossa história era a mesma.
Desde então, não houve nunca um momento em que eu estava em sua casa que ele não me ofendesse. Seja com palavras, seja com os 'tapinhas' nas costas que ele me dava mostrando falta de afetividade, tudo sempre foi uma apunhalada no meu coração, que eu sempre fingia que estava tudo bem. Numa briga, ele me chamou de "subversiva", "terrorista", "ladra", "bandida" entre outros, por ser a favor da libertação do Césare Battisti, por ser de esquerda e ser contrária ao modo de governo no Estado de SP. Conversa essa que terminou com uma acusação de estar 'ausente' e ao perguntar o porque, uma frase 'eu NUNCA vou aceitar a sua condição' encerrou o assunto e eu fui embora. Chorei, mas isso já estava tão recorrente que eu logo parei.
Tenho chorado pela condição da minha relação com meu pai há muitos meses. Não há um dia que eu não chore, e ontem, ficou claro que ele não se importa. Ao dizer coisas piores do que da primeira vez, eu não acredito mais que haja alguma possibilidade dele um dia aceitar. Não quero mais dizeres do gênero: "dá um tempo pra ele, uma hora ele vai aceitar", não tem mais importância ele aceitar ou não. Ontem, ele pisou no meu coração, destruiu a nossa história e jogou no lixo todas as nossas lembranças. Não posso, de forma alguma relatar aqui as coisas ditas naquela discussão, e nada que eu diga vai fazer com que se personalize a grosseria, a abominação, o horror de uma filha ao ver seu pai classificar a sua relação com os nomes que ele usou. Toda a promessa de amor eterno, acabou pois ele não aceita sua filha não depender de um pênis para viver. E eu não fiz nada de errado, somente amo, e hoje vejo que a pior coisa que eu pude fazer foi ama-lo e insistir nessa relação por amor a ele e a nossa história juntos.
Por um momento, ontem, eu achei que meu pai tinha voltado pra mim. Mas quem ama não abandona.
Esse blog visa o desabafo de uma filha que está órfã de um pai que mora há 5 minutos da sua casa.
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