segunda-feira, 11 de julho de 2011

Eu já Sabia...

- Pai eu estou namorando. Com um menino.
Suspiro uma tensão aliviada.
O Pai pára.
A mãe, fazendo o almoço, chora; dessa vez não é pela cebola picada.
Esta é a situação: o Filho está (dis)posto em pé ao lado da geladeira branca, o Pai parado na porta de alumínio que dá para fora, para o quintal, a Mãe chora. Era como se o tempo tivesse paralisado, cada segundo: eterno. Pai e Filho se olham, este último desvia ao Máximo o olhar entristecido e envergonhado, como trilha sonora o choro soluçante da Mãe, que estava em pé, no balcão de pedra cinza do lado da pia.
Após o longo e torturante silêncio entre Pai e Filho o primeiro responde:
-  Eu já sabia!
A partir deste momento as palavras trocadas pelos dois se tornaram extintas. Conversas: monossilábicas e sem olhares.
Assim, nesta situação, é que grande maioria dos homossexuais deixam suas famílias, perdem o apoio, ficam sem chão. Sai à rua sem destino, o futuro é incerto. “O futuro não é mais como era antigamente”, os planos todos se explodiram. Comigo não foi assim, o apoio zero, mas persisti, agüentei. Passaram-se meses sendo “rejeitado”, sem conseguir uma palavra doce. A Mãe, aquela que chorava na cozinha, passou a chorar pela sala, quarto, banheiro, menos na rua, acontecesse isso os vizinhos saberiam.  A Irmã, que até então não entrou no relato, disse que o/me amava  e que não adiantava ficar distante (para os irmãos sempre é menos difícil). O Pai, aquele calado na porta de alumínio, continuou calado por outras regiões da casa, ele falava era na sala do psicólogo.
Depois de 6 meses de terapia aconteceu o primeiro diálogo decente entre Pai e Filho:
“Não sei se você sabe, mas eu estou indo no psicólogo...  
... Como Ele está? E a Família Dele?...
...Eu te amo...
...Olha: não vai sair por aí vestido de mulher.”
“Pode deixar Pai, não sou assim. Também te amo!”


Felipe Milani
ator e bailarino


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