sexta-feira, 8 de julho de 2011

Destruição.

Como são frágeis as relações.

Ontem, ao decretar o fim da minha relação com meu pai, eu percebi que tudo o que tínhamos construido nesses 26 anos de convivência havia sido absolutamente nada. Eu sei que aos 26 anos já não se pode esperar muita coisa; o que mais tem são amigos com problemas de convivência com seus pais, seja por qual razão for, mas principalmente pela diferença de pensamento e de rotina. Eu e o meu pai não. Nós nos dávamos bem, conseguia me enxergar nele e perceber seus defeitos sem que isso me incomodasse; afinal, eu também os tenho. Além dos 1m86 de força, num homem negro e de feições duras, eu enxergava amor e fragilidade. Sentia o amor dele por mim, a devoção, e me preocupava, mesmo não estando mais na sua casa, em continuar sendo a filha atenciosa e que, em todo o lugar que ia, o comunicava, por vontade própria, não conseguia ser de outro jeito.

Lógico que tínhamos problemas. Nossa relação nunca foi perfeita, mas sempre foi sincera. E eu e ele nunca, absolutamente nunca, guardávamos mágoas um do outro. Era sentir e pronto, acabou. Saí de casa há 2 anos e meio pois não acreditava conseguir voltar a viver com ele, pois nós nos víamos 1 vez por semana por conta da distância do trabalho dele e a minha vida de atriz. Quando ele entrava de férias ou licença, nós (eu, meu irmão e minha mãe) não tínhamos espaço em casa, a TV, a sala, o banheiro, tudo era tomado pelo seu cigarro e pelas suas vontades. Eu e meu irmão tentávamos não brigar pra não afetar o seu descanso, nem brincar, nem fazer nada. Toda a casa se movimentava para o bem estar dele. Eu vivi nisso por 11 anos, sem reclamar, mas ao fazer 24 anos, o desejo de ter meu espaço e meus horários sem cobrança gritou e eu saí. Ele sofreu e eu sofri. Me fiz forte pra mostrar a ele que estava decidida e que não voltaria atrás. Nem se não desse certo, eu voltaria. Deixei meu quarto intacto para mostrar a ele que eu não tinha abandonado a sua casa, mas sim, criado outro lugar que seria meu, e que sempre voltaria. Voltei várias vezes. Acertava meu horário para que, todas as quintas, estivesse lá. E ele também estava. Fazia janta especial para mim, baião de dois, caldo de mocotó, salada de escarola e marisco, todas aquelas coisas que eu adorava e só ele fazia. E fazia questão de me servir, todas as vezes. Eu sorri, todas as vezes, feliz pois ele estava feliz.

Hoje, eu estou com 26 anos. Faltam 3 meses para completar 27. Estou mais próxima dos 30 do que dos 20, o que me mostra que, porra, tô crescendo. Não sou mais uma adolescente, as minhas amigas e amigos, alguns estão casados, outros, namoram firme. Eu também tenho alguém. A Cibele entrou na minha vida depois de 6 meses que eu tinha saído de casa. Nunca me imaginei com uma menina, mas também nunca rejeitei a idéia. Era atração, depois, virou um grande sentimento que eu e ela nem sabemos como ficou assim. Minha casa é cheia de amor, de carinho, nossa relação é tão cheia de cumplicidade, de companherismo, tão livre de possessões e tristezas. Finalmente, alguém que me complementa. Nada na minha vida é tão sagrado e intocável quanto nós duas. E isso, me (nos) torna especial. Eu me preparei para ter alguém, e a minha caminhada foi solitária. Minha terapeuta ajudou a entender algumas coisas, como me aceitar como alguém sexual, mas em nenhum momento ela me indicou para esse ou aquele direcionamento afetivo (claro, pq isso não existe). Meu pai nunca, em nenhum momento, se meteu na minha vida sentimental, íntima ou sexual. Nunca me cobrou namorados, nunca me perguntou nada. Apenas quando eu estava depressiva por conta da não-correspondência dos meus amores ele vinha me dar colo, mas também sem nunca dizer uma palavra, sem nem perguntar o que estava havendo. Então, seria normal eu começar a namorar com uma menina e não dizer nada pra ninguém, muito menos pra ele.

Ele me dizia: "eu sou seu pai e te amo pra sempre", "vou te amar independente do que aconteça" ou até um "filha, te amo. Não esquece". Eu nunca esqueci. Pensava que meu pai me amava por mim, por ter sido a filha que ele sempre pediu, ele, pai orgulhoso de uma filha escritora que sempre correu atrás dos seus sonhos e que hoje, mora sozinha, paga a suas contas e tem um carro zero. Pai de uma filha heterossexual.

Até o determinado momento em que ele percebe a aliança em meu dedo.

Todo o processo de entender o tempo de cada um, entender que isso é um baque pra qualquer pai tradicional, entender que ele está agressivo e introspectivo, e que isso faz parte. Entender o período da raiva, do ódio, da culpa... essa fase que não passa nunca.

Eu nunca o obriguei a conviver com a Cibele; mas eu sou sua filha, e lá moram minha mãe e meu irmão, pessoas que eu também amo e que não sou obrigada a me afastar. Eu ouvi as piores atrocidades do meu pai da primeira vez em que nos vimos depois dele saber a verdade. Não conseguia falar nada, chorei, chorei e chorei, sem saber o que fazer pra que ele se sentisse menos mal. Eu lutei e venci contra a culpa de estar apaixonada por uma mulher, culpa essa que ele insistia em colocar em mim. Fui embora e decidi continuar a frequentar a minha casa, para mostrar a ele que isso é uma coisa natural, e que eu e o meu caráter não havia mudado. Continuava sendo a sua filha e a nossa história era a mesma.

Desde então, não houve nunca um momento em que eu estava em sua casa que ele não me ofendesse. Seja com palavras, seja com os 'tapinhas' nas costas que ele me dava mostrando falta de afetividade, tudo sempre foi uma apunhalada no meu coração, que eu sempre fingia que estava tudo bem. Numa briga, ele me chamou de "subversiva", "terrorista", "ladra", "bandida" entre outros, por ser a favor da libertação do Césare Battisti, por ser de esquerda e ser contrária ao modo de governo no Estado de SP. Conversa essa que terminou com uma acusação de estar 'ausente' e ao perguntar o porque, uma frase 'eu NUNCA vou aceitar a sua condição' encerrou o assunto e eu fui embora. Chorei, mas isso já estava tão recorrente que eu logo parei.

Tenho chorado pela condição da minha relação com meu pai há muitos meses. Não há um dia que eu não chore, e ontem, ficou claro que ele não se importa. Ao dizer coisas piores do que da primeira vez, eu não acredito mais que haja alguma possibilidade dele um dia aceitar. Não quero mais dizeres do gênero: "dá um tempo pra ele, uma hora ele vai aceitar", não tem mais importância ele aceitar ou não. Ontem, ele pisou no meu coração, destruiu a nossa história e jogou no lixo todas as nossas lembranças. Não posso, de forma alguma relatar aqui as coisas ditas naquela discussão, e nada que eu diga vai fazer com que se personalize a grosseria, a abominação, o horror de uma filha ao ver seu pai classificar a sua relação com os nomes que ele usou. Toda a promessa de amor eterno, acabou pois ele não aceita sua filha não depender de um pênis para viver. E eu não fiz nada de errado, somente amo, e hoje vejo que a pior coisa que eu pude fazer foi ama-lo e insistir nessa relação por amor a ele e a nossa história juntos.

Por um momento, ontem, eu achei que meu pai tinha voltado pra mim. Mas quem ama não abandona.

Esse blog visa o desabafo de uma filha que está órfã de um pai que mora há 5 minutos da sua casa. 

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